“O sector primário tem grande potencial de desenvolvimento”

Nuno Amado, presidente da Comissão Executiva do Millennium bcp, defende uma aposta do seu banco no apoio ao setor primário. Nesta entrevista, dada por escrito ao Jornal de Noticias e ao Diário de Notícias, o dirigente da entidade bancária, que com os dois jornais lança uma grande iniciativa sobre empreendedorismo agrícola, defende que “o setor primário desempenha um papel fundamental ao permitir, por um lado, dinamizar o setor exportador e, por outro, servir o consumo interno, com redução das importações de bens alimentares”.

1 – Porque é que a banca se está a focar neste momento na agricultura?

Presidente do banco Santander Totta Nuno Amado

“Estamos focados no financiamento às empresas com projetos inovadores “

R: O Millennium bcp tem o compromisso estratégico de apoiar a economia, as pessoas e as empresas. Estamos focados no financiamento às empresas, com projetos inovadores e sustentáveis e com um nível de risco adequado. O setor primário, englobando não apenas a agricultura mas também as pescas e as agroindústrias, é um setor muito interessante e com grande potencial de desenvolvimento. Hoje existem jovens empresários muito qualificados que começam a dedicar-se ao setor de forma mais especializada, mas existem também empresas mais consolidadas, com bons níveis de risco, e com projetos interessantes no mercado nacional e de exportação que devem ser fomentados. O Millennium quer reforçar o apoio também a este setor de atividade. 

2 – O regresso à agricultura é apenas uma moda, potenciada pelo crescimento da procura de bens alimentares que fez disparar o preço dos produtos agrícolas?

R: O modelo de crescimento económico do país esteve durante muitos anos assente em outros setores de atividade. O setor primário tem vindo a evoluir, passando por um processo de transformação, em que novas técnicas de cultivo e a industrialização do processo produtivo tornam o setor mais atrativo e mais desafiante para muitos empreendedores. Num contexto em que necessitamos de corrigir e consolidar um saldo da balança comercial historicamente deficitário, o setor primário desempenha um papel fundamental ao permitir, por um lado, dinamizar o setor exportador e, por outro, servir o consumo interno, com redução das importações de bens alimentares. Existe muito trabalho a fazer pois, apesar do saldo do comércio internacional de bens ter passado de -21,4 mil M€ em 2010 para -9,3 mil M€ em 2013, o saldo de transações de produtos alimentares e bebidas no mesmo período manteve-se quase inalterado passando de -3,5 mil M€ para os -3,1 mil M€. Apesar da taxa de cobertura neste tipo de bens ter aumentado de 52% em 2010 para 61% em 2013, sabemos que esta evolução decorre de uma procura interna mais reprimida e é fundamental continuar um trabalho de dinamização das exportações, seguindo o exemplo espanhol.

3 – O futuro desta nova agricultura portuguesa – tal como o da maioria da produção doméstica – também é a exportação? Existem incentivos ou linhas de crédito neste sentido?

R: A internacionalização das empresas portuguesas, em todos os setores de atividade, é um dos fatores críticos de sustentabilidade e sucesso das empresas a médio e longo prazo. O apoio às exportações constitui um dos vetores de enfoque da estratégia de proximidade que o Millennium bcp desenvolve na sua atividade diária. Apoiamos as empresas na identificação de mercados externos adequados às características de cada empresa e à sua atividade comercial e temos centros de competência com experiência para aconselhar as empresas nos seus projetos de internacionalização. Também temos produtos e serviços ajustados, minimizando o risco comercial, para fazer face às diferentes necessidades de financiamento, gestão de tesouraria e gestão de risco, bem como soluções transacionais simples e inovadoras através do nosso site. Além disso oferecemos interligação com as nossas operações em mercados de forte crescimento como Polónia, Angola, Moçambique, e Macau/China, facilitando os contactos com eventuais parceiros locais. 

4 – Num negócio onde o risco de perda das produções devido a fatores climatéricos e pragas é sempre elevado, o setor financeiro dispõe de soluções que permitam segurar as culturas e equipamentos? 

Presidente do banco Santander Totta Nuno Amado

“Temos soluções para as empresas e para projetos sustentáveis e de risco adequado”

O fator climatérico é um risco incontornável do setor. Creio que os próprios empresários, seja individualmente, seja através das associações do setor, são os primeiros interessados em encontrar soluções adequadas de cobertura em seguradoras especializadas  que em geral são autónomas da oferta tradicional dos bancos. Já quanto à cobertura de riscos de equipamentos a situação é distinta, pois o fator crítico é a utilização corrente do mesmo, algo em que o setor financeiro já tem experiência. Se as empresas tiverem coberturas de seguros adequadas, reduzem o risco do financiamento – é por isso uma solução que a todos interessa.

5 – Como funcionam os sistemas de financiamento do Millennium BCP face aos incentivos públicos?

R: O Millennium bcp tem uma parceria muita ativa com os organismos públicos de apoio às empresas dos diferentes setores, entre os quais o IFAP – Instituto Financiamento da Agricultura e Pescas. No âmbito desta parceria celebrámos um conjunto de protocolos destinados a apoiar as empresas dos setores agrícola, das pescas e agroindustrial. Complementarmente, existem igualmente protocolos celebrados com a Agrogarante, sociedade de garantia mútua direcionada especificamente para o setor agrícola, permitindo disponibilizar às empresas uma solução de garantia facilitando o acesso ao financiamento por parte das empresas. 

6 – A falta de liquidez e tesouraria são um lugar comum na gramática dos empresários portugueses. Que instrumentos financeiros existem para ajudar quem quer investir na agricultura? 

R: As empresas do setor agrícola, agro-industrial e das pescas dispõem de um conjunto de soluções para apoio às suas necessidades, tanto para apoio à gestão corrente da tesouraria da empresa, como para a implementação de novos projetos de investimento. Temos soluções para as empresas e para projetos sustentáveis e de risco adequado. O Millennium bcp foi líder em montante de operações na linha PME Crescimento 2013 global e na sub-linha de Micro e Pequenas Empresas.

7 – Os produtos da agricultura biológica tem maior valor acrescentado. Num país com pouco território e onde predominam as pequenas explorações é este o caminho da nossa produção agrícola?

R: Um dos fatores chave para a excelente performance do setor agrícola está ligado à capacidade dos empresários em encontrarem formas distintivas de abordagem ao mercado, diferenciadoras e que potenciam o valor criado e a rentabilidade dos respetivos negócios. A agricultura biológica representa uma forma inovadora e diferenciadora de operar no setor, com grande valor percebido para o consumidor, por via da certificação da maior qualidade dos produtos e da manutenção de técnicas produtivas mais sustentáveis do ponto de vista ambiental.

Presidente do banco Santander Totta Nuno Amado