Pode haver um bom futuro para um país à beira-mar plantado

Os morangos portugueses podem ir longe? E as amêndoas? O vinho consegue ganhar quota em mercados-alvo em vez de procurar países-alvo? As empresas de transformação agrícola abrirão ainda mais fábricas no estrangeiro? Se tivéssemos viajado durante uns anos e, de repente, voltássemos, tudo isto pareceria uma história irreal. Mas não é. A vocação agrícola aliada à crise noutros sectores trouxe novos protagonistas a um do sectores mais abandonados’ da economia portuguesa nos últimos 20 anos.

Geral2Dos 30% de população ativa na agricultura da década de 60, hoje restam 6%, mas que produzem e facturam um volume superior ao de então, sobretudo com evidência nas exportações – que já valem 8% do total nacional. O que foi sucedendo? Há produtos em que Portugal se organizou melhor – o leite, por exemplo, apesar da sua atual crise de preços –, mas também o tomate, que continua a dar cartas. Portugal é o segundo maior produtor da Europa em produto transformado e o quarto maior do mundo. A ribatejana Sugalidal é a segunda maior a nível global.

Esta nova respiração do sector agrícola ficou bem visível durante as jornadas de empreendedorismo agrícola organizadas pelo JN/DN na Casa da Música, no Porto, há poucos dias. Portugal está a mudar a uma velocidade vertiginosa – por boas e más razões. A mudança do paradigma económico, vocacionado agora mais para os bens transacionáveis, exportáveis, coloca um grande foco político na agricultura, porque é uma atividade de sector primário que pode trazer incorporação nacional como poucas. O azeite, o vinho, a fruta ou os hortícolas são uma conjugação de terra, água, sol e técnicas agrícolas capazes de produzir produtos de excelência. Tudo isto pode ser 100% português.

A banca está atenta ao “sangue novo” que o sector está a atrair e, como diz Nuno Amado, presidente do Millennium BCP, há áreas em que não vale a pena continuar a reforçar quota de mercado (o imobiliário é um exemplo) mas na agricultura (e sector primário) a meta do Millennium é crescer 5% em dois anos – de 15 para 20 por cento.

Há um reforço de oportunidades de crédito com as necessidades de capital geradas pela chegada de mais fundos comunitários – com destaque para o Programa de Desenvolvimento Regional (Proder). Este sistema tem sido a grande porta de entrada para novos investimentos. As candidaturas garantem uma média de 30 a 40% de fundo perdido e, neste momento, estão a agilizar-se os mecanismos para que as garantias mútuas possam ajudar agricultores que não têm bens reais para dar em hipoteca aos bancos.

Onde investir e bem:da fruta ao vinho

Jorge Dias, da empresa de vinho do Porto Gran Cruz, recordou nas Jornadas JN/DN/Millennium que o tempo e a inovação são fatores essenciais para consolidar as marcas e o prestígio da agricultura portuguesa, nomeadamente no sector agroalimentar. “Devemos fazer uma escolha: ou o caminho das pedras, assente na tradição – por vezes retrógrada e bafienta –, ou vamos pela via da inovação, da dimensão e das marcas próprias”. Por isso, considera, os dois elementos que mais podem mudar a agricultura são “ a gestão e o marketing no mercado”.

Nesta mesma perspetiva, João Miranda, orador principal da conferência do Porto e presidente da enpresa que é líder de preparados à base de fruta para a indústria, traça uma linha comum entre as produções portuguesas que estão a correr bem e as que não se organizam e ganham dimensão suficiente. Note-se que a Frulact compra 25 mil toneladas de fruta por ano para as suas oito fábricas globais (três em Portugal, duas em França, uma em Marrocos, uma na África do Sul e uma nos Estados Unidos). No entanto, no total das compras de fruta, apenas consegue abastecer-se com 10% de matéria-prima portuguesa, porque não encontra dimensão, qualidade e prazo na esmagadora maioria das empresas nacionais.

João Miranda coloca como bons exemplos os produtores de pêra Rocha, kiwi, azeite ou castanha e na lista com problemas estruturais os subsectores do morango, amêndoa, cereja, baga de sabugueiro e maçã. No entanto, com um pequeno salto de gestão e inovação, Portugal teria grandes capacidades para ditar cartas também nestas culturas.

O diretor regional da agricultura do norte, assinalou entretanto que o norte tem hoje, como nunca teve na sua história, uma geração dedicada a lavoura com uma preparação que esta área nunca teve”. “Quem está a ir para o campo pode ter falta de experiência mas não tem impreparação intelectual”, assinalou Manuel Cardoso. E sobre a polémica quanto à falta de terra para mais agricultores, este responsável admite o problema mas não esquece o ponto de partida: “Sim senhor, é necessário terra, mas só há agricultura se houver pessoas”.

Os problemas da organização dos produtores – levantado durante a conferência, por exemplo, pela Frulact – é um dos grandes obstáculos do Norte. É querer comprar amêndoa e pêssegos e não haver interlocutores. Esse e o nosso grande Calcanhar de Aquiles”, afirma o director regional.

Luís Pereira Coutinho, administrador Comissão Executiva do Millennium BCP, não perdeu de vista a questão central: “Há projetos bonitos no papel mas depois falta a capacidade de execução que nós valorizamos muito”. Como em tudo, há uma dose de dúvida e de necessidade de pragmatismo: “Olhamos para o melão de casca de Carvalho, sabemos que é bom, mas temos de saber se é vendável. Temos de olhar com realismo para as capacidade de cada projeto vender a produção no final”.