A lavoura como se fosse uma alfaiataria

SE A MÃE de José Carlos Mendes não tivesse dividido o quintal da família em cinco talhões para os filhos cultivarem, talvez hoje José Carlos Mendes não vendesse especialidades hortícolas aos melhores chefes de cozinha do País. Não que se tivesse apaixonado de imediato pela agricultura. Mãe é mãe e as ordens eram para cumprir. José Carlos tinha, aliás, outros planos: Engenharia Civil. E por aí andou muitos anos, nas mais variadas obras deste País – autoestradas e Expo 98, por exemplo. Mas havia dentro deste engenheiro uma outra “alma”, a de agricultor, à espera de um “clique”.

Jose Carlos Mendes

José Carlos Mendes: “Não há nada melhor do que ser eu próprio a contactar com os meus clientes diretos e a ouvir deles, sem filtros, o que acham e produzir à medidade cada um”

Esse momento aconteceu, um dia, aquando de umas férias na Grécia – “Estava eu a descansar das obras da Expo”, relembra. José Carlos Mendes reparou que os gregos produziam algodão, uma cultura que supomos sempre como africana, asiática, ou das grandes extensões do continente americano. O engenheiro soma 2+2. Se se faz algodão na Grécia, porque não em Portugal? Quando regressa, elabora um engenhoso plano, em part-time, de arrendar terras abandonadas no Alentejo para produzir algodão – o Alqueva poderia ter rega suficiente para produções em grande escala.
O projeto do “algodão de elevadíssima qualidade”, como um dia testemunhou o ex-presidente Jorge Sampaio numa Presidência Aberta, morreu às mãos da Política Agrícola Comum – Portugal não assegurou quotas nesta plantação. Mas não se perdeu tudo: a alma de agricultor já tinha vindo ao de cima: despediu-se das obras para ser empresário agrícola.
Primeiro passo: José Carlos comprou um terreno de um hectare e meio, perto de Marco de Canaveses, e começou a estudar como produzir algo diferente. Juntou ao projeto a filha Joana e candidatou-se ao PRODER (Programa de Desenvolvimento Rural). Como se percebe pelo tamanho do terreno, o investimento não pode ser gigantesco. São 230 mil euros. Só que aplicados de forma inovadora porque foi canalizado para “agricultura tecnológica”. E do que se trata? De “baby-legumes”, ou os ainda mais pequenos microlegumes.
Parece simples, mas não é. José Carlos Mendes e a filha investigaram durante meses qual a melhor forma de produzir estes legumes tão apreciados pelos grandes chefes para receitas gourmet. Havia pressupostos definidos: a produção deveria ser em estufa, não estar dependente das estações do ano (52 semanas por ano há colheitas) e traduzir-se num bom alimento nutricional. Foi então que nasceu a Hortícolas Hidropónicas do Douro (H2D), exatamente porque estes legumes são todos cultivados sem terra, em bancadas de estufa irrigadas por água e nutrientes. Belas microcenouras com rama, pequenas beterrabas e rabanetes de várias cores. Pequenos ramos de alface, microrrúcula, etc.

O melhor da Europa
também tem
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A quem vender? Esta é uma pequena empresa. Além de pai e filha, há apenas mais dois funcionários – um na estufa, outro na bancada de venda ao público, instalada no vanguardista Mercado do Bom Sucesso do Porto, “para quem quer fazer receitas gourmet e depois não encontra os ingredientes que vê na televisão”. Como sempre nestas histórias, foi o empresário “faz-tudo” José Carlos Mendes quem meteu os pés ao caminho à procura dos clientes. E sabia exatamente quem era o seu mercado-alvo: os mais famosos chefes do País, desde Rui Paula a Vítor Sobral, passando por muitas das melhores cadeias de hotéis instaladas no Porto, até ao melhor da Europa na votação online do site 50 melhores restaurantes da Europa (The European 50 Best Restaurants), o Casa da Calçada, de Amarante, liderado pelo chefe Vítor Matos. “E as nossas cenourinhas foram servidas à princesa do Mónaco, numa das caves de vinho do Porto.”
Não é a primeira vez que se produzem microlegumes, mas é uma especialidade difícil de encontrar. A prova disso, diz José Carlos Mendes, é que o chefe do Intercontinental de Paris, numa breve visita ao Porto, fez questão de ir a Marco de Canaveses ver como eram produzidos os microlegumes da Hidropónicas do Douro servidos no Intercontinental do Porto e lamentou não os ter em França. Talvez com a construção de mais duas estufas, de 500 metros quadrados cada, o nível de produção da empresa possa ter escala para vender a afamados chefes além-fronteiras.
Esta é uma história como poucas no País: 230 mil euros de investimento, volume de negócios de 200 mil euros/ ano em velocidade cruzeiro, talvez cinco pessoas para acompanhamento de três estufas, um ponto de venda (no Porto) e dono que também faz prospeção comercial e entrega. Quem disse que a agricultura não pode ser inteligente e de alto valor acrescentado?

Daniel Deusdado
danieldeusdado@faordeideia.com

FICHA DE PRODUTO:
CENOURANúmero de cenourinhas produzidas por ano – 68 500 un. de micro e minilegumes. 50% foram de  5 variedades de  microcenouras.

Número de chefes e hotéis – 7 hotéis, dos quais  3 com estrela Michelin  (25% dos estrela Michelin  em Portugal )

8 restaurantes de autor – Rentabilidade/ ano por hectare (dentro de 3 anos): 1,5/hectares – 200 mil euros