Um Minho verde pintado de frutos vermelhos

O MINHO  continua verde e frio no inverno, mas não tão frio que estrague a fruta, e nem sempre tão verde que não tenha o sol suficiente para tornar a fruta doce. Um clima misto, com bastante chuva e muitas nascentes, torna o miolo da agricultura de pequenas propriedades quase sempre em locais com histórias pessoais. São casas de família, com cães por perto, animais a pastar ao longe, e objetos espalhados aqui e ali que evocam um passado de muitos séculos ligados à terra.

Delicias do Tojal

Os negocios familiares do Minho não substituem a necessidade de uma gestão profissional. E Ayrton gere a Delícias do Tojal sete días por semana

Ayrton Cerqueira tem 28 anos e é um continuador deste tipo de histórias. Nasceu na Quinta do Tojal, perto de Vila Verde, numa quinta comprada pelo pai. Os anos passaram e embora ajudasse nos trabalhos agrícolas, quis ir estudar mecânica. A vida poderia apontar em várias direções mas o destino bateu à porta: com a morte do pai, Ayrton teve de tomar conta da quinta onde os investimentos num grande armazém e na ideia de conservar a fruta produzida já tinham absorvido muito dinheiro.“Estão aqui 25 anos da vida do meu pai investidos mas também, sejamos sinceros, está aqui uma grande oportunidade de negócio.” E assim começou uma nova fase da Delícias do Tojal.

Uma das primeiras coisas que o novo empresário percebeu foi que o mercado da “nova fruta” estava em explosão no Norte. Uma das est relas destes investimentos é o kiwi, principalmente no Minho e no Douro Litoral. Sabe-se que Belmiro de Azevedo tem investido fortemente nesta cultura para fornecer os seus hipermercados até porque o kiwi não é demasiado complicado de produzir e tem uma capacidade de armazenamento em ambiente frio até seis ou sete meses.

Mas a outra grande corrente de investimento por todo o lado é a dos frutos vermelhos
– mirtilos, framboesas, groselhas e amoras. Tudo espécies sensíveis, com preços por quilo superiores às clássicas laranjas e maçãs, e que tem gerado um boom de candidaturas aos fundos do Programa de Desen­volvimento Rural onde os montantes podem ir acima dos 40% a fundo perdido.

Foi no kiwi e nos frutos vermelhos que a Delícias do Tojal apostou mas de uma forma algo mais estratégica do que o minifúndio habitual – sem escala. Em primeiro lugar Aytorn percebeu que tinha apenas sete hectares e que, com essa dimensão, não iria muito longe. O seu primeiro mérito foi o de ter convencido a família com campos em redor, na freguesia de Couceiro, a vender-lhe a produção. Mas mais: não apenas a família mas muitos outros produtores em redor. Argumento: o melhor de todos. Preço. Perto de dois euros por quilo acima da média paga pelos grossistas ou grandes superfícies.

Dessa forma passou de 40 toneladas de fruta fresca em 2003 para umas previsíveis 300 toneladas em 2014. “E temos capacidade para escoar 500 toneladas. Só falta que as pessoas percebam que o nosso preço até a embalagem inclui e que é um bom negócio trabalhar connosco.”

A diferença está…
na congelação

O que permite à Delícias do Tojal defender-se melhor é a grande capacidade de congelação. Nos frutos vermelhos há um primeiro momento, essencialmente no final da primavera e verão em que é possível vender-se a fruta fresca, com bom valor de mercado. Mas, nessa ocasião, está toda a gente a tentar colocar no mercado o mais depressa que pode a fruta acabada de colher, logo os preços descem. Por isso a empresa embala e congela muitos frutos vermelhos quer para decoração gastronómica e gourmet como a fruta que vai servir essencialmente para uso industrial – gelados, batidos, iogurtes, bolos, etc.

Em ambos os casos, e com uma boa gestão do produto, a Delícias do Tojal já consegue exportar para grandes clientes europeus, sobretudo belgas, ingleses e alemães, por camião. “O produto fresco resiste bem à viagem de dois ou três dias.” As exportações valem 85% dos 200 mil euros do volume de negócios anual que, na prática, se divide em vendas de dois terços de fruta fresca e um terço de fruta congelada. A quinta chegará em julho aos 15 funcionários. Este número, multiplicado por muitas outras quintas, representa aquilo que é evidente: a agricultura continua ainda a representar muita mão de obra apesar da crescente mecanização. Mas para frutos vermelhos tão sensíveis como os “frutos silvestres” a mão humana continua a ser a melhor máquina.

Ayrton acrescenta ainda uma explicação sobre porque é tão frequente comprarem-se maus frutos vermelhos nos hipermercados. “Tirei de lá a minha marca. As coisas correram bem nos primeiros anos. Mas depois, com a centralização das centrais de abastecimento à volta de Lisboa, o produto anda a fazer quilómetros e acaba por se deteriorar. Não estou para ver a minha marca ser vendida sem qualidade.” E largou os gigantes da distribuição, vendendo apenas aos pequenos distribuidores em Portugal. Nos dias que correm, é preciso coragem e ele teve-a.

Daniel Deusdado
danieldeusdado@faroldeideias.com

FramboesaFRAMBOESAS
QUANTIDADE PRODUZIDA
: 47 toneladas
PERCENTAGEM EXPORTADA: 85%
PAÍSES PRINCIPAIS: França e Bélgica
VALOR EM FRESCO: 6 € – valor pago ao produtor (média em época normal de produção  –  valores disponíveis no site)
VALOR CONGELADAS 2,50 € – valor pago ao produtor