Combater idade avançada de agricultores vai decidir futuro

debate Plateia com mais de 100 pessoas. Debate moderado por António Perez Metelo (esq) contou com Nuno Alves, Jaime Borges, Artur Cristóvão,  Abílio Tavares da Silva e Adelino Bernardo (Rui Manuel Ferreira/Global Imagens)

António Peres Metelo moderou o debate das Jornadas de Vila Real. Esteve acompanhado (da esquerda para a direita) de Nuno Silva, diretor coordenador da Rede de Empresas Norte do Millennium BCP, Jaime Borges (Adega Cooperativa de Vila Real), Artur Cristóvão, vice-reitor da UTAD, Abílio Tavares da Silva (Quinta de Foz Torto) e Adelino Bernardo, diretor-adjunto da Direção Regional de Agricultura e Pescas. (Rui Manuel Ferreira/Global Imagens)

O ritmo de  entrada de  uma nova  geração de  agricultores é  bastante  baixo. Num  universo de  300 mil, com  média etária  de 63 anos,  entram apenas  dois mil novos  empreendedo-res por ano, o  que não repõe  a quantidade  dos que vão  saindo por  força da idade  ou do  insucesso. Nos  próximos anos  se verá se esta  nova vaga é  capaz de  inverter a  tendência dos  últimos anos.

Nuno Moreira, principal orador da conferência de Vila Real promovida pelo JN/DN/ Millennium BCP, colocou esta questão com números: a média etária das 300 mil pessoas que vivem da terra é de 63 anos. Grande número está a tempo parcial e a esmagadora maioria tem a instrução básica, ou ainda menos. Assim sendo, consegue reverter-se este declínio através da entrada de gente nova em quantidade (e formação) para fazer crescer o valor do que se produz em Portugal?

Conferencia de empreendedorismo agrícola em Vila RealEsta questão é ainda mais crucial quando se olha para o mapa da importância do setor primário nas economias locais e se verifica que no interior do país (de Trás-os-Montes às Beiras) ela é absolutamente crucial e o seu declínio refletirá um ainda maior abandono do país. Esse abandono poderá suceder quer pela morte dos velhos homens rurais que ainda cultivam ou cuidam das terras, quer pela impossibilidade de vender os seus produtos em mercados cada vez mais sofisticados. A entrada de jovens qualificados ou de uma geração de meia-idade – com experiência noutros setores mas capaz de trazer novas ideias para a agricultura – é absolutamente decisiva para que este “pequeno boom” não reflita apenas uma fuga à crise, mas que não esteja condenada a desaparecer face a potenciais insucessos iniciais que negócios como estes podem sofrer.

Duas experiências

Um exemplo destes dois pressupostos esteve, aliás, à vista nesta conferência. No palco dos oradores encontrava-se, lado a lado, a experiência do presidente da bem-sucedida Adega Cooperativa de Vila Real, Jaime Ferreira Borges, e do outro lado o arrojo e desejo de mudar de vida do ex-citadino (financeiro e tecnológico) Abílio Tavares da Silva, proprietário da Quinta de Foz Torto. Enquanto o primeiro teve de operar o que foi designado como o “milagre” da salvação da Cooperativa de Vila Real, tornando-a numa casa com vinhos premiados por todo o Mundo, Abílio deixou um vasto currículo de sucesso em empresas tecnológicas e veio para o Douro mudar de vida, através da compra de uma quinta onde produz vinho com reputação. Essa decisão assentou num pressuposto que muitos dos novos empreendedores não têm: a capacidade de ficar quase uma década até que a nova vinha consolide, os novos processos e a marca ganhem qualidade e visibilidade, e só a partir daí haja retorno de capital.

Este problema do tempo – do longo prazo – na agricultura é uma característica sistematicamente presente em todos os debates desta série de conferências sobre Conferencia de empreendedorismo agrícola em Vila Realempreendedorismo agrícola. Nuno Alves, diretor-coordenador da Rede Empresa Norte do Millennium BCP tem tentado quebrar esse tabu, sublinhando que o banco está preparado para responder a esse desafio do prazo, desde que os projetos revelem “viabilidade, pernas para andar, organização e pensamento a longo prazo”. “Há apoios para PME e aos novos empreendedores que estão a rejuvenescer a agricultura, há linhas específicas com vários apoios”, diz Nuno Alves.

A nova postura que se sente na Banca em geral pode ajudar a mudar a realidade da agricultura, desde que os spreads e garantias bancárias exigidas não sejam tão elevadas ao ponto de “roer” as baixas margens do negócio. “As instituição de crédito abandonaram a agricultura por muitos anos. Chegava-se a um banco, dizia-se que se era lavrador e ficava-se para último”, disse, perante um auditório repleto, o presidente da Adega Cooperativa de Vila Real. “É bom que as instituições de crédito voltem ao setor agrícola, é salutar, porque a agricultura é a nossa base”, afirmou. E reconheceu o ponto fraco das novas apostas: “Ou o empreendedorismo agrícola tem alguma dimensão, ou, se não tiver escala, é absorvido”.

Pontos fracos… e fortes

Esta ideia, aliás, tem sido sucessivamente repetida pelos responsáveis do Ministério da Agricultura presentes neste roteiro de conferências pelo país, apelando ao associativismo e cooperativismo entre produtores. Adelino Bernardo, diretor-adjunto da Direção Regional de Agricultura do Norte, sublinhou estes três pontos fracos da paisagem agrícola, sobretudo no Norte: “Há uma fraca dimensão das explorações, organização agrícola sem dimensão e o individualismo. É preciso criar condições para se criar valor acrescentado na produção, de forma a que a distribuição da cadeia de valor seja mais equitativa”.

Conferencia de empreendedorismo agrícola em Vila RealUma das pequenas revoluções à vista pode verificar-se através de investimentos em “pequenas barragens” que, segundo Adelino Bernardes, o Ministério da Agricultura vai pôr em marcha no Norte através dos fundos comunitários do pacote 2014-2020. Com mais regadio, calcula que haja mais 50% de aumento de produtividade.

O vice-reitor da UTAD, por seu lado, chamou a atenção para um dos estrangulamentos para o crescimento da agricultura, que passa pela escassez de terra. Se a este dado juntarmos a dificuldade em criar a “Bolsa de Terra”, a limitação para quem quer entrar fica evidente. Mas há uma notícia dada por Nuno Moreira que pode ajudar a reverter um pouco este problema. Segundo ele, dos 3,7 milhões de hectares dedicados à agricultura em Portugal, metade são pastagens permanentes. A reconversão destes terrenos para produções mais rentáveis constitui um enorme potencial para o país.

Em Trás-os-Montes em concreto, Artur Cristóvão relembrou o potencial por explorar – para além da castanha – nas leguminosas e nas culturas que, quase naturalmente, podem adquirir o selo de “biológico” – e com isso mais valor. A região conseguiu reconverte-se na década de oitenta para produção leiteira, depois para as raças autóctones, a seguir para os produtos DOP (Denominações de Origem Protegida) e gastronomia/cozinhas regionais, já para não se falar do vinho no Douro. Portanto, há esperança de que consiga subir em valor e sucesso nos próximos tempos.