Há uma história de amor com aveleiras


Imagine um arbusto que parece uma árvore. Para que não existam muitas avelãs ocas ou com um fruto mirrado, devem ser plantadas aveleiras polinizadoras entre as filas dos pomares. Anita Cabral de Almeida cruzou a espécie autóctone, a Grada de Viseu, com a Gunslebert, Negreta e Segorbe. Esperou pelos bons ventos de Viseu, as grandes amplitudes térmicas. Resultado: os quase oito hectares de aveleiras estão a rebentar aos primeiros raios de sol de uma primavera que tarda em fazer-se sentir. A seguir, lentamente, as bolinhas castanhas vão crescendo até à altura da colheita, fim de setembro ou início de outubro.

Esta é uma história de amor difícil de contar, como as grandes histórias de amor. Neste caso, entre as diferentes espécies de aveleiras, todas com nomes maravilhosos: Butler, Dawton, Ennis, Fertile de Coutard, Gentil de Viterbo, Gironela, Grada de Viseu, Grosse de Espanha, Gunslebert, Imperatriz Eugénia, Merveille de Bollwiller, Negreta, Provence, Segorbe e Tonda de Giffoni. Para a história de hoje, a protagonista é portuguesa: Grada de Viseu. É uma qualidade de aveleira impossível de reproduzir em viveiro fora daquele clima supostamente agreste das Beiras para os humanos – muito calor, muito frio – mas o habitat certo para este arbusto.

Anita Cabral de Almeida é a proprietária de um dos grandes terrenos às portas de Viseu onde a Grada reina. Oito hectares de aveleiras únicas no mundo – que os americanos da Califórnia visitam mas não conseguem reproduzir lá. Uma professora de Português/Francês do ensino secundário, já reformada, que prossegue o projeto do falecido marido, agora com o apoio de alguns dos oito filhos.

A Casa de Nespereira é uma casa de família que vai crescer agora para o agroturismo, através de um projeto apoiado pelo ProDeR, para uma oferta de sete camas. Uma casa histórica, em granito e com jardins à volta, onde corriam, na tarde em que lá estivemos, alguns dos 19 netos de Anita Cabral de Almeida. Ao longe, as aveleiras com um inovador sistema de rega gota a gota para quando há períodos de seca. “Temos tentado inovar, essa é uma das nossas experiências. A aveleira consome muita água, às vezes duas horas de rega por dia, e assim a produção é maior.” O modo de produção é biológico e, embora não esteja neste momento certificado, o espaçamento entre árvores foi todo redesenhado para que cada aveleira pudesse crescer em altura. Conta ainda com um solo relativamente argiloso, pouco azotado, e uma adubação natural que resulta das cinzas das próprias folhas que caem nos pés das árvores. Muito importante: fruto da reformulação da plantação feita há 20 anos, agora há, por cada quatro linhas da Grada de Viseu, uma linha de espécies polinizadoras.

Quando chega a altura da colheita, espera-se que as avelãs caiam ao chão já sem o envolvimento da cúpula foliácea dentada. São apanhadas à mão. Homens e mulheres que há muitos anos vivem naquelas redondezas aparecem à porta da quinta para ganhar a jorna. A Casa de Nespereira produz, em média, quatro toneladas por hectare, o que dá pouco mais de 30 toneladas por colheita anual, a única fonte de rendimento da empresa. Anita Cabral de Almeida vende depois as avelãs a granel para vários fornecedores nacionais. O filho Francisco está neste momento a formar-se em Agroindústria, para dar uma sequência com mais valor acrescentado ao negócio da família. O essencial já lá está: avelãs únicas.

Raridade: óleo de avelã

Um dos compradores de avelã da Casa de Nespereira é a Bio4Natural, uma pequeníssima empresa com uma enorme ideia. José Sebadelhe é um gestor a trabalhar numa empresa de energia renovável que tem, em paralelo, um negócio a crescer: produção de cosméticos a partir de produtos naturais portugueses.

Ele e a mulher, Aida, professora de Património Cultural, começaram por criar um pequeno laboratório na Ericeira e um armazém em Foz Coa. A ideia é ter frutos secos para produzir os melhores óleos naturais para a pele humana. Quando chegam à pequena unidade de produção, os óleos são extraídos a frio para fazer cosmética: óleos de aplicação direta, regeneradores labiais, sabonetes, entre outros produtos. “O óleo é a única substância que realmente atravessa a pele e tem um efeito eficaz. Os cremes têm um efeito superficial.”

O óleo de avelã, segundo José Sebadelhe, faz a hidratação penetrar na pele e, ao mesmo tempo, não deixar oleosidade excessiva à superfície, além do seu teor riquíssimo em ómega 6 e 9 e vitamina E. É um crime o que se faz todos os dias quando se leva ao forno frutos secos para alimentação humana. Perde-se o essencial do fruto – os óleos. (Aqui fica a dica: coma frutos secos em fresco, ou seja, parta-lhes a casca, para depois incorporar o melhor que a natureza tem em óleos essenciais, preservados por uma casca que mantém o fruto fresco até o alimentar a 100%)

A Bio4Natural está a tentar entrar com uma marca portuguesa no negócio da dermocosmética dominado pelos grandes tubarões franceses, suíços e alemães que vemos nas farmácias. Já conseguiram convencer alguns spas de Lisboa a usar óleos naturais nas massagens, um efeito terapêutico transcendente, se tivermos em conta que a generalidade dos óleos consumidos em grande escala no mercado são feitos à base de petróleo… É uma tarefa hercúlea mas que vai ser tentada por esta empresa com estrutura preparada para cinco pessoas e em que o líder do negócio é, como sempre nas microempresas, a pessoa que faz a gestão, as vendas e a pesquisa de mercado. “Estamos no quilómetro 1 de uma corrida de 10 mil quilómetros”, dizem José e Aida, um casal com três filhos, acabados de chegar aos 40, ou seja, com muito tempo pela frente para fazerem crescer um negócio de elevado potencial made in Portugal.

Daniel Deusdado
danieldeusdado@faroldeideias.com

 

 

 

,