Beiras descobrem o poder da maçã e das marcas DOP

O debate em Viseu

As Beiras têm a serra da Estrela e montanhas de baixa altitude em redor de Viseu ou Castelo Branco. Têm vinho do Dão queijos únicos, maçã, cereja do outro mundo, muito investimento em frutos vermelhos, frutos secos. E a floresta. Chegou a hora do valor acrescentado?

Esta é uma região que tem quase 40 marcas DOP (denominação de origem protegida), vinhos valorizados como os dos Dão, e região campeã nacional da produção de maçã.  Estamos na presença de um território com um largo futuro em produções de valor acrescentado. Viseu, a informal capital das Beiras – onde se incluem Guarda, Covilhã e Castelo Branco, como outras importantíssimas âncoras – está cada vez mais no mapa agrícola e florestal do País, mas surge agora um facto novo para reforçar a procura do turismo e do valor acrescentado: a candidatura a Património Mundial da Humanidade. Tudo conjugado e pensado a partir das suas gentes, gera um capital de ânimo e investimento para fazer descolar a região. Com a terra na base deste relançamento.

Para isso suceder de forma rápida e consistente continua a faltar uma premissa: a certeza de que haverá jovens interessados em investir na agricultura. Sobre esse tópico, a diretora da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro deixou notícias com algum horizonte durante a 4.a etapa da conferência “Cultivar o Futuro”, promovida pelo Jornal de Notícias, Diário de Notícias e Millennium bcp. Segundo afirmou Adelina Martins, a região centro apresentou 5700 projetos de investimento ao Programa de Desenvolvimento Regional (ProDer), no valor de 803 milhões de euros. E há outras boas notícias: não se ficam apenas pelas intenções porque 93% receberam já comparticipações de execução.

No caso do distrito de Viseu, dos 981 projetos apresentados, 583 eram de jovens agricultores e correspondiam a candidaturas efetivamente jovens porque muitos dos quais foram entrevistados pelos serviços de candidaturas da Direção Regional de Agricultura do Centro. A preocupação com o rejuvenescimento do sector fará que no novo quadro comunitário 2014-2020  os projetos de jovens agricultores tenham um prémio de 10 mil euros e uma bonificação de 10% face às restantes candidaturas. Além disso, Carlos Oliveira, da AgroGarante, sublinhou que os bons projetos dos jovens agricultores têm conseguido obter até 80% de garantias para cobrir o risco de financiamento que a banca exige.

Mudança estrutural

Esta questão continua a ser essencial em todos os debates sobre agricultura porque a taxa de rejuvenescimento do sector, segundo os dados dos Censos 2011, era catastrófica. Mas algo está a mudar estruturalmente. A diretora regional de Agricultura assinalou que há um enorme interesse dos jovens agricultores, sobretudo nos pequenos frutos (mirtilos framboesas, groselhas) onde mercados com elevado poder de compra no Norte da Europa continuam a absorver as boas produções pelo efeito deste tipo de alimento como antioxidante natural. O Millennium bcp anunciou também que está criada uma linha específica para apoio de liquidez durante o tempo em que os apoios do ProDer (depois de aprovados) ainda não foram pagos. “É um risco baixo, porque o pagador é o Estado e os valores são muito atrativos”, sublinhou Miguel Magalhães Duarte, coordenador da direção de marketing de produtos empresa do Millennium bcp. Outra linha de financiamento é a da compra de equipamentos em leasing – tem o apoio do Banco Europeu de Investimentos, o que torna o seu custo mais baixo. Outro mecanismo é o da linha de crédito para exportadores, que ajuda a suportar o tempo de carência nos reembolsos de IVA.

O flagelo dos fogos

Sabe-se também que a crise dos últimos anos gerou uma nova atenção para o sector que ainda não está medida pelas estatísticas. “A prova de que algo está mesmo a mudar é a de que há 5 ou 6 anos não se imaginaria que estivéssemos aqui a apoiar o sector agrícola”, assinalou Miguel Magalhães Duarte. Poder-se-ia dizer, aliás, que a Quinta da Ínsua é a prova disso – um caso de sucesso e integração regional. Trata-se de um projeto de produção de vinho, queijos, produtos DOP e turismo considerado um ex–líbris do turismo de qualidade na região e no País. Ainda assim, José Matias, da Quinta da Ínsua, não deixou de recordar que “o território está a ficar pobre” apesar de todas as modas que possa existir neste momento. Um despovoamento do Interior associado a uma maior desertificação – gerada progressivamente pelos incêndios florestais e abandono das terras – temas estes que nunca estão fora de agenda porque continuam a massacrar o território. A destruição de boa parte da serra do Caramulo mostra como não há turismo em serras devastadas.

A esse propósito, João Paulo Gouveia, vereador do Desenvolvimento Rural da Câmara de Viseu (e primeiro orador desta conferência – ver texto ao lado), sublinhou o facto de a autarquia ter gasto nos últimos meses um milhão de euros a limpar caminhos e acessos florestais como forma de garantir um muito mais eficaz combate aos incêndios, além de 500 mil euros em reparação de caminhos rurais, essenciais para manter as pessoas em territórios mais inóspitos e isolados.

João Paulo Gouveia é também responsável por um caso de sucesso em Viseu já que integra a família e o projeto “Pedra Cancela”, uma marca de vinhos do Dão fortemente internacional e galardoada em 2007 com o prémio Excelência e “Empresa do ano” no sector. O seu grupo não se limitou a produzir vinho mas criou, em simultâneo, empresas internacionais para vender vinhos portugueses lá fora – a LusoVini, MozamVini e BrasVini – que no conjunto faturam sete milhões de euros por ano. “Fala-se muito do sector automóvel por causa das exportações nacionais, e nós aqui em Viseu temos o grupo PSA (Peugeot-Citroën) mas o valor acrescentado da produção nacional do vinho é dez vezes superior ao gerado nesses sectores”, sublinhou o vereador da Câmara de Viseu.

A formação das novas gerações neste contexto das oportunidades locais com elevado valor acrescentado é uma das missões que a Escola Agrária de Viseu (EAV) tem tentado manter. Apesar de estar a funcionar a 50% da capacidade potencial para acolher alunos, a diretora da EAV, Paula Correia, sublinhou que 95% dos alunos conseguiram assegurar emprego embora muitas vezes fora da área agrícola. A formação de novos licenciados recém-chegados à agricultura e novas soluções de formação online (a de agricultura biológica já está a funcionar) são um novo potencial a desenvolver. Tudo isto em Viseu, uma terra que está a fazer um mapa de coisas únicas que desconhecia de si mesma.