Cerfundão quer cerejas a conquistar o mundo



NO DIA em que visitámos o armazém da Cerfundão, a calma reinava nas instalações. As máquinas estão paradas, imaculadamente limpas, e milhares de caixas de plástico amarelo aguardavam a chegada de maio, altura em que as cerejas colhidas nos pomares da região são aqui entregues. Pedro Catalão é o diretor comercial da empresa: conta-nos que, no pico da colheita, chegam a entrar neste armazém mais de 25 toneladas de cereja por dia.

Esta é uma produção importante para a região, com um microclima privilegiado que tem como resultado uma cereja com altos teores de açúcar, uma boa consistência e uma apresentação capaz de conquistar o consumidor só pelo olhar. Anualmente são produzidas cerca de oito mil toneladas, abrangendo produtores que vivem única e exclusivamente deste fruto tão cobiçado no nosso país e além-fronteiras.

A Cerfundão terá nascido “pela necessidade de criar uma entidade dedicada a comercializar a produção dos agricultores”. E, desde 2006, a empresa recebe as cerejas das colheitas, introduzindo-as num moderno sistema de lavagem, triagem e embalamento, que exigiu um investimento de 510 mil euros, com o apoio de 200 mil euros vindos do Programa de Desenvolvimento Rural (Proder).

Nesta infraestrutura, as cerejas começam por receber literalmente um tratamento de choque térmico num processo de hydrocooling. Pedro Catalão explica que “fazem o arrefecimento da cereja para parar a sua maturação”. Após ser separada por calibres, é feita uma escolha: “Todo o produto que não serve para ser consumido fresco é retirado, e é feito o embalamento, para enviar para os mercados nacionais e internacionais.”

No fundo, esta calibragem veio trazer um maior rigor à comercialização de cereja. Não só permite classificar variedades, como é também o principal critério para avaliar a qualidade da produção e assim atribuir o valor mais justo a cada produtor.

A vontade de exportar

De toda a produção de cereja da Cova da Beira, apenas 360 toneladas são canalizadas para a Cerfundão, entre mais de 40 variedades diferentes deste fruto.

Com estes números o potencial para crescer é grande, sobretudo a pensar no mercado internacional. Mas aqui surgem dois grandes obstáculos: a fragmentação da produção – demasiadas variedades sem quantidades expressivas – e a mentalidade dos produtores.

Pedro Barroca Pires, presidente da Cercobe e da Cerfundão, diz-nos que “essa é a parte mais polémica” desta questão. Explica que “a maioria dos produtores de cereja da região pensa que, trabalhando individualmente, faz melhor negócio do que em conjunto”. E afirma, com tristeza, que isso a Cerfundão não conseguirá mudar. Explica que, com esta mentalidade, “quando se nasce invejoso, morre-se invejoso. Não há hipótese”.

Apesar disso, confia que, “se [as novas gerações] conseguirem mudar de mentalidade, podem fazer grandes coisas com a cereja na Cova da Beira”.

Hugo Manuel Correia
hugocorreia@faroldeideias.com

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