Ecossistema ajuda a produzir mil toneladas de queijo

OS RELATOS da presença de ovinos na Serra da Estrela e da produção de queijo são tão antigos como a própria passagem dos romanos pela Península Ibérica. Durante muito tempo, os rebanhos guiados pelos pastores dispersavam-se em transumância pelas serras em busca de alimento, e já nessa altura, além do leite, estes animais proporcionavam a lã, a carne, o estrume e as peles tão importantes para as economias familiares.

João Madaleno: “O tecido tem de ser renovado. Há que aumentar a cultura gastronómica e de consumo local. E preciso fidelizar novos jovens consumidores”

João Madaleno: “O tecido tem de ser renovado. Há que aumentar a cultura gastronómica e de consumo local. E preciso fidelizar novos jovens consumidores”

Segundo João Madanelo, Engenheiro Agrónomo da Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela estamos a falar de “uma ovelha autóctone, com uma base alimentar exclusiva e principalmente assente no pastoreio direto”, ovelhas a quem é proporcionado um bem estar animal.

Com a progressiva sedentarização dos rebanhos a produção leiteira foi ganhando cada vez mais relevo. Mas foi por volta de 1981 que, com as promessas da entrada de Portugal na União Europeia, alguns pastores da região perceberam a importância de se organizarem para os desafios que o mercado único iria acarretar.

Foi num contexto de produtores isolados, sem espírito associativo, que nasceu a ANCOSE. Começou por ter como primeira prioridade o melhoramento e a proteção da raça ovina. Segundo João Madanelo, a associação começou por “fomentar tecnicamente todas as explorações de ovinos e promover os produtos das ovelhas”. Hoje reúne um leque alargado de serviços, desde o apoio no controlo sanitário, um programa de melhoramento da raça com a manutenção do livro genealógico, os serviços de tosquia, de apoio técnico às explorações e contabilidade agrícola.

A par dessas valências, Madanelo destaca, ainda, os apoios prestados aos pequenos produtores na preparação de projetos de candidatura a subsídios e fundos comunitários.

Aliás, no contexto do tecido humano e profissional da região, onde ainda há pastores que sabem ler mas que, por vezes, “têm dificuldades em escrever”, João explica que a “ANCOSE também tem tido um papel no diálogo com a Administração Central com vista a flexibilizar medidas e procedimentos burocráticos”. A título de exemplo, explica que, “como resultado de um pedido de derrogações, junto do Ministério da Agricultura, estará para breve a publicação, em Diário da República, de medidas que adequarão a atividade das pequenas queijarias (de agricultura familiar) à conformidade legal.”

Experimentar para inovar

Aquando da nossa visita, João Madanelo estava a ultimar detalhes para a XXIII Festa do Queijo Serra da Estrela e Outros Produtos Locais de Qualidade, em Oliveira do Hospital, e também estava a supervisionar os derradeiros detalhes da renovada Oficina Tecnológica /Queijaria.

Esta unidade foi atualizada recentemente, com o investimento de 30 mil euros, financiados em 40% pelo Proder (Programa de Desenvolvimento Rural). João explica que, além da vocação produtiva, este é um espaço de formação e desenvolvimento experimental.” Aliás, um dos grandes objetivos é dar novas valências ao leite desta ovelha.

O resultado das experiências e da produção será posto à venda numa pequena loja instalada no interior da própria oficina, com a comercialização a cargo da empresa Sabores e Ambientes Serra da Estrela.

Produtos de ovelhas generosas

Destas experiências já há produtos para provar. A manteiga de ovelha, por exemplo, “não é feita a partir do leite, mas a partir do soro de leite.” E, a par disso, o grande destaque vai para o iogurte de ovelha.

Segundo João Madanelo, “o iogurte, até agora, só estava direcionado para o leite de vaca, mas hoje é possível fazê-lo com o leite de ovelha”, obtendo-se um “iogurte cremoso, de leite inteiro e que poderá ser combinado com mel, ou um doce de frutos silvestres.”

Os primeiros ensaios começaram em 2008, mas hoje a Oficina Tecnológica está licenciada para o fabricar, tendo todas as condições para o colocar no mercado de forma regular.

O próximo passo será a divulgação, algo que João Madanelo acredita que poderia ser feito com a ajuda da restauração e das próprias escolas: “Estes são produtos únicos da nossa terra, têm de estar muito bem identificados, e depois disso têm de ser dados a conhecer e a consumir.”

E ainda há pastores?

Num universo de 4 mil produtores, detentores de 100 mil animais, o grande desafio ainda é uma questão de escala, pois não há uma capacidade de produção escalonável para a exportação. E os apoios não têm sido muitos. Segundo João Madanelo, o último quadro comunitário não esteve direcionado para o apoio à criação de pequenos ruminantes, tendo contribuído para uma queda do efetivo nacional.

Uma situação que, espera, possa ser invertida com o próximo quadro comunitário que tem 2020 no horizonte. Já a questão eternizada pelo documentário de Jorge Pelicano continua a ser uma preocupação para o sector.  Ainda há pastores, é certo, mas é preciso atrair mais jovens para esta área.

João Madanelo afirma que é preciso haver um grande apego aos animais e perceber “o tempo que isto afeta: são 365 dias em anos não bissextos”. E ao tempo soma-se a necessidade de espaço mínimo para uma atividade sustentável, pelo menos 150 animais para duas pessoas, e partindo do pressuposto de que o pastor terá terreno ou um contrato de arrendamento.

Numa altura em que tanto se discute a ocupação das terras, João Madanelo acolheria com agrado uma nova “Lei das Sesmarias” para fazer bom uso das terras e para que estas não ficassem descuidadas. Segundo ele, “nós, portugueses, fomos um dos maiores responsáveis pela globalização alimentar. E hoje, mais que nunca, teríamos de fazer o inverso: produzir localmente e consumir localmente, valorizando o que temos como património único.”

Daniel Deusdado
danieldeusdado@faroldeideias.com